● Le Papier Shine On: Order XIII - 1.ª Parte

15 abril, 2016
Em Coimbra a noite era fria como se a Primavera teimasse em não surgir. A chuva caía abundantemente ou não fosse Abril o seu mês de eleição, mas como se tais condições meteorologicamente adversas não tivessem qualquer importância, um vulto emergia das trevas para a luz da cidade… O seu casaco negro comprido, óculos escuros, botas All-Star e mala de guitarra (que alberga a Gunblade Ultima) coincidiam com a descrição de Le Papier, o detective que desde há treze anos se tinha tornado numa lenda urbana na cidade.
Silenciosamente, coloca a guitarra na mala do seu clássico Ford Mustang de 65 e afasta-se em velocidade.

Le Papier fora o responsável por acabar com a guerra que envolveu a Máfia liderada pelos S.O.M.B.R.A., uma poderosa Aliança de Conglomerados Empresariais. Depois de várias batalhas ao longo dos anos, a influência desta Organização foi enormemente reduzida mas não obliterada, mesmo após vários anos adormecida.
Papier foi também uma das figuras que esteve presente no Evento X-Over, uma enorme batalha que revelou ao mundo a existência de seres poderosos e sobrenaturais… Anjos, Demónios, Bestas e uma poderosa entidade Apocalíptica lutaram ferozmente pelo domínio das preciosas Almas humanas, mas felizmente, depois deste incidente, foi criada uma trégua entre estas Entidades, que se tem revelado duradoura…
Independentemente de tais acontecimentos, a vida continuou para o jovem, que não parou de combater os malfeitores que encontrou no seu caminho, e os níveis de actividade criminal nunca estiveram tão baixos… Mas o vento pode mudar rapidamente…


Aveiro. A chuva deu tréguas por fim e Papier podia deambular pelas ruas à vontade… Era hora de trabalhar!
Nos últimos tempos, os únicos clientes que tem tido têm sido casais com níveis de desconfiança em relação ao seu cônjuge tão altos que a paranóia se instalou completamente, e foi mais uma senhora preocupada com hipotéticos apêndices que pudessem estar em crescimento na sua cabeça que levaram o jovem à Veneza portuguesa. Agora seguia-se uma rusga intensiva pelos bares e discotecas da cidade, o que se podia revelar perturbador, dado o enorme aglomerar de ritmos kizombianos que se propagam na atmosfera nocturna actual, mas Papier veio prevenido com música de bom gosto e headphones com volume no máximo.
Infelizmente ou não, a demanda de Papier depressa chegou ao fim, pois mal chegou ao Autocarro Bar notou imediatamente a presença do marido infiel da sua cliente, agarrado a duas jovens que, tendo em conta os olhares de desdém que trocavam entre si, eram claramente profissionais em noite não. Papier sorriu para o indivíduo que retribuiu com um olhar confuso, seguindo o seu caminho. Fotos tiradas e enviadas, estava assim mais uma missão simples cumprida com sucesso.


Papier estava a passear pela zona portuária de Aveiro, a aproveitar os intrincados riffs de Black Dog, quando algo chamou a sua atenção… Movimento muito acima do que seria natural e uma concentração fora do comum de personagens num cais próximo… Sem pensar duas vezes, Papier aproximou-se rápida e furtivamente, aproveitando as sombras da noite e movendo-se em silêncio.
Um cargueiro estava aportado e um grupo numeroso de indivíduos descarregava os seus contentores para um camião de forma eficiente e com muita organização, mas ao aproximar-se, Papier conseguiu vislumbrar que um par de soldados foi traído pelo terreno escorregadio e uma das caixas que transportavam caiu ao chão, revelando o seu conteúdo: Vinis que serviam de cobertura para um recheio constituído por armas e peluches que ocultavam munições em grande número…
Esta era apenas uma das muitas caixas do tamanho de um adulto que os soldados fortemente armados com equipamento de alto calibre estavam a mover aos milhares, mas houve algo que o intrigou ainda mais… um caixote enorme, que precisou de quatro homens para o transportar desceu do cargueiro, e uma figura encapuzada por um longo manto negro aproximou-se para conferir o conteúdo. Deu um golpe seco com o punho no cadeado e este desfez-se como se fosse feito de papel. Abriu a tampa e nesse momento todo o ambiente à volta desta operação se alterou, deixando Papier estupefacto. No caixote encontrava-se uma espécie de pilar, arrepiante como nunca o jovem havia visto, esculpido em pedra negra coberta de algas, decorada com inscrições aparentemente muito antigas que lhe conferiam uma aura extremamente misteriosa e com um baixo-relevo no seu centro, mas a forma como a escultura fora feita não permitia que Papier o conseguisse vislumbrar à distância, no entanto, foi algo que deixou os soldados que ali se encontravam totalmente aterrorizados!
A figura encapuzada deixou cair a tampa com um estrondo e, como se um interruptor se tivesse activado, os soldados voltaram ao trabalho, ainda que com olhares desconcertantes, que mostravam que o que quer que estivesse naquele caixote era algo verdadeiramente maligno. Algo tinha de ser feito… e Papier recuou até à obscuridade, abriu o porta-bagagens do Mustang e passou as mãos pela mala da sua guitarra, pronto para voltar à acção e tornar aquele cais num autêntico Pandemónio!


Papier irrompeu rapidamente pelo cais e empurrou os dois guardas da entrada, abraçando-os pelas costas e deixando-os imediatamente inconscientes. Escondeu-os na obscuridade e subiu para um contentor, avançando rapidamente para onde os soldados se concentravam, eliminando mais três homens, indefesos perante o ataque silencioso e predatório de Papier.
Depois de se desembaraçar do terceiro, notou alguma comoção por parte dos soldados que restavam, quem sabe alertados da sua presença? Tal era improvável, dada a eficiência brutal com que Papier se desembaraçara dos homens que encontrara pela frente, mas esta era a hipótese mais provável. Correu ao seu encontro, e deu por si isolado, com o camião a desaparecer em velocidade, deixando atrás de si um rasto de poeira. Papier voltou-se e viu-se frente-a-frente com a figura encapuzada que vira antes e que liderava os soldados. A iluminação do porto falhou e apenumbra envolveu-os.
Imóveis durante os segundos que se seguiram, os dois quase conseguiam tocar a tensão que existia entre eles naquele momento, iluminados apenas pela lua quase cheia e pelo céu carregado de estrelas.
O Encapuzado ergueu lentamente a mão que escondia atrás das costas, revelando uma enorme foice dupla com lâminas azuis, que não deveriam ser muito diferentes em constituição da sua espada Ultima, o que por si só já era incomum, alertando Papier que a ergueu em resposta. A batalha teve início.
Papier lançou-se em velocidade com golpes rápidos e precisos que o Encapuzado desviou com enorme destreza e agilidade. De estatura mais pequena e aparentemente mais frágil que Papier, a figura de negro conseguia evitar a lâmina de Papier sem grandes problemas, mas após tanto defender decidiu por fim passar ao ataque!
Empunhou a foice com as duas mãos e lançou-se em velocidade contra Papier com uma série de movimentos quase invisíveis ao olho humano, aos quais o jovem reagiu instintivamente, porém não foi rápido o suficiente para impedir um corte profundo no seu braço direito e um arranhão no rosto… bem vistas as coisas, teve bastante sorte. Ao observar o sangue a escorrer-lhe do rosto e sentir a dor que lhe percorria o braço, deixando-o algo dormente, Papier notou o quanto estava enferrujado em matéria de combate, mas também o quanto esta explosão de adrenalina o deixou empolgado, deixando-o mais focado, e ao observar o sangue a escorrer-lhe do rosto e convencido de vez do adversário temível que tinha pela frente, estava pronto para o segundo assalto.

O choque das lâminas era tal que o porto se iluminava por instantes a cada impacto. O som de aço contra aço compassado ao ritmo da respiração controlada ao extremo pelos dois oponentes contrastava com o rugido do mar revolto que rebentava com estrondo à medida que a chuva recomeçava a cair com uma intensidade cada vez maior…
Completamente equilibrados, Papier ligeiramente mais forte, o Encapuzado um quanto mais rápido, mas de destreza impressionantemente semelhante, os dois gladiavam-se ininterruptamente à medida que a chuva os ensopava, tornando-os mais pesados e consequentemente mais lentos, algo a que Papier não se podia arriscar, uma vez que a ferida no seu braço já o limitava suficientemente. Era a primeira vez em muito tempo que se sentia desafiado desta forma e a sensação era mais agradável do que algum dia admitiria a si próprio, mas não podia continuar assim. Um mero deslize podia significar o fim da luta e a figura de negro também tinha plena consciência disso, e por isso decidiu acabar com a luta antes que o seu arrastar pudesse tornar-se problemático.
Num movimento de impressionante agilidade, o Encapuzado deu um salto para trás ao mesmo tempo que rodopiava sobre si mesmo e soltava a foice num impulso que lhe transmitiu uma velocidade assombrosa, e que Papier só conseguiu evitar com uma combinação de reflexos rápidos e pura sorte, caindo no chão enquanto o seu longo casaco era cortado em dois. O ataque todavia não tinha terminado e a foice voltava em velocidade para o seu dono que se projectou no ar para a readquirir e num gesto rapidíssimo segurou-a com firmeza e golpeou Papier que bloqueou instintivamente com a Ultima, ficando com a lâmina adversária a centímetros do rosto.
Impressionado mas não derrotado, Papier soltou a lâmina mais curta de Ultima do corpo principal e lutou para se soltar do Encapuzado que estava agora finalmente a mostrar cansaço. Num último esforço e com o adversário quase tão esgotado como ele, Papier atacou sem tréguas, fazendo a figura de negro recuar como nunca. Usando as lâminas duplas para ganhar vantagem no combate, o jovem conseguiu quebrar as defesas do Encapuzado que, numa tentativa de esquivar o ataque de Papier, deixou que o seu capuz fosse rasgado, e ficou desmascarado… expondo um rosto que deixou Papier algo atordoado durante alguns segundos, tempo suficiente para a figura se recompor e recuperar o equilíbrio perdido.
O capuz desfeito que foi em seguida atirado para o chão revelou a Papier uma jovem rapariga esbelta e extremamente atraente, com longos cabelos negros que ao luar transpareciam um tom azulado e uns olhos escuros que pareciam estranhamente vazios de expressão. Trocaram olhares durante um momento e a jovem acabou por desaparecer no instante seguinte na escuridão da noite chuvosa.


Papier voltou a Coimbra ainda confuso com o rumo que a noite tinha tomado. Tinha percorrido o porto à procura de pistas daquela estranha operação, mas após quase uma hora de investigação não encontrou nada que valesse a pena reter. Aqueles soldados eram claramente profissionais… e a sua jovem líder não lhe saía da cabeça, nem o seu olhar distante e vazio, que destoava completamente das suas restantes feições… a sua presença ali era um mistério para ele, tal como aquele estranho e assombroso pilar negro que ainda lhe transmitia arrepios só de pensar nele.
Entrou no Avalanche 21, o bar do seu grande amigo Diego e qual não foi o seu espanto ao dar de caras com Zack Thunder, o seu velho Mestre, que segundo Diego tinha vindo fazer-lhe uma visita à cidade mas acabou por se empolgar um pouco e estava agora visivelmente embriagado e a meter conversa amigável com um grupo de universitários ali presentes, e claramente com enfâse nas raparigas do grupo. Papier foi calmamente buscar o seu Mestre que se mostrou muito feliz em vê-lo, embora também aborrecido pelo tempo que passou à sua espera. A sua bipolaridade na presença de álcool era algo que o jovem conhecia bem e que até o divertia um pouco, mas era tempo de deixar o seu velhote descansar.

Papier levou Zack pelos ombros enquanto este se divertia a mandar piropos às jovens que passavam por eles saídos dos bares e discotecas, algo a que Papier não achava especial piada, sobretudo quando Zack fazia gestos extravagantes com os quais elas se divertiam bastante. Quando chegaram ao Mustang e por fim ao Grand Chaos, o escritório de Papier, este estava esgotado.
Arrastaram-se até à porta, que Papier notou ter um vidro partido. Poucos teriam a coragem de assaltar o jovem, pelo que sacou da sua Desert Eagle, não fosse o diabo tecê-las.
Ao entrar no escritório, esperava-o sentado no sofá e semi-ocultado pela obscuridade Dani Shade, o seu amigo de infância e grande rival, visivelmente com mau aspecto, que Papier fez questão de notar, e que se agravou ao levantar-se pois foi possível notar múltiplas feridas no rosto e manchas de sangue na roupa outrora impecável. O seu rosto estava rígido como pedra. Até Zack ficou subitamente sério.

Shade falou por fim após alguns momentos – Roland Black fora atacado... Estava entre a vida e a morte...


Comentários
2 Comentários

2 Comentários :

  1. Room401 disse... :

    Espetáculo! Já tinha saudades destas historias! Muito bom

  1. Leather disse... :

    Muito fixe, novos mistérios :)

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